Home GLF News Lideranças defendem a agricultura regenerativa diante dos impactos climáticos que transformam os sistemas alimentares globais

Lideranças defendem a agricultura regenerativa diante dos impactos climáticos que transformam os sistemas alimentares globais

Share:

Panel “Partnerships for regeneration: Aligning business and nature” at the Regenerative Agriculture Forum 2026. Photo: Global Landscapes Forum
Panel “Partnerships for regeneration: Aligning business and nature” at the Regenerative Agriculture Forum 2026. Photo: Global Landscapes Forum

Especialistas e agentes de mudança discutiram biodiversidade, solos, financiamento e políticas públicas no Brasil e online, enquanto milhares de participantes exploraram caminhos para ampliar a transição e sua relevância para além dos sistemas alimentares

Pecege, Brasil (25 de junho de 2026) – A pressão sobre os sistemas alimentares globais está aumentando em ritmo alarmante e, neste ano, prevê-se que o El Niño intensifique enchentes, secas e interrupções nas cadeias de abastecimento. Enquanto governos e empresas buscam fortalecer a segurança alimentar, a resiliência climática e cadeias produtivas positivas para a natureza, a agricultura regenerativa deixou de ser uma prática de nicho para se tornar uma prioridade global.

No Fórum de Agricultura Regenerativa 2026, agricultores, cientistas, investidores, lideranças empresariais, organizações comunitárias e formuladores de políticas públicas discutiram formas de acelerar a adoção de práticas agrícolas que regeneram os solos, preservam a biodiversidade e fortalecem a segurança alimentar.

Analí Bustos, diretora estratégica para a América Latina da Naia Trust e coordenadora da GLFx Espinal Córdoba, destacou a natureza como a absoluta base da agricultura e da economia e ressaltou que a transição para a agricultura regenerativa é tão urgente quanto as transições nos setores de transporte e energia. “O principal desafio é desenvolver uma lógica de relações — a transição tem a ver com as relações entre espécies e com o sistema”. Como exemplo, ela observou que a ecologia muitas vezes não faz parte dos currículos de agronomia e ciências agrícolas na Argentina.

Em consonância com Bustos, Xiaoan Li, gerente sênior de programas do Fetzer Institute, defendeu uma revisão das raízes da crise ecológica sob a perspectiva de uma crise das relações. “Muitos de nós herdamos uma visão de mundo baseada na separação: a humanidade separada da natureza, das outras pessoas e das futuras gerações. Assim, a extração se torna normal, a terra vira mercadoria, a água se transforma em recurso e o mundo vivo passa a ser algo que administramos, em vez de algo ao qual pertencemos (…) Se conseguirmos passar da separação para o pertencimento e da extração para relações de reciprocidade, a regeneração deixará de ser apenas uma prática e se tornará uma forma de existir.”

Isabela Pascoal Becker, diretora de Sustentabilidade, Governança e Impacto da Daterra Coffee, defendeu uma mudança na forma como a sociedade percebe e conduz a agricultura, acolhendo-a como parte da natureza e não como um problema ambiental. Segundo ela, essa mudança de mentalidade pode ampliar as oportunidades de colaboração entre diferentes atores e setores. “Um ponto importante levantado nesta discussão foi o pensamento sistêmico. Todos nós aqui aprendemos que é impossível resolver as complexidades que a gente vive hoje de uma maneira linear, processual, mudando apenas um item.”

Ao abordar a urgência da transição, Ulrich Kuhlmann, cientista-chefe da CABI, destacou tanto as oportunidades quanto as barreiras significativas existentes. Ele apontou as parcerias público-privadas, incluindo processos multissetoriais em políticas públicas, pesquisa e produção, como fundamentais para enfrentar a falta de evidências sobre os retornos para os produtores, especialmente os financeiros. Além disso, ressaltou que a colaboração entre múltiplos atores pode ajudar a enfrentar o aumento de 70% no uso de pesticidas desde 2000. “Se queremos ampliar a agricultura regenerativa, precisamos investir não apenas em inovação, mas também em ecossistemas independentes de assistência técnica, evidências geradas localmente e plataformas de conhecimento que tornem essas inovações acessíveis, confiáveis e aplicáveis para todos os produtores.”

Nos painéis sobre finanças de impacto, inovação, cadeias de valor sustentáveis e liderança de mulheres e jovens na agricultura, especialistas e profissionais destacaram a importância de valorizar a diversidade e ampliar a colaboração em todo o setor.

Geoffrey Hawtin, laureado com o Prêmio Mundial da Alimentação de 2024 e ex-diretor de centros de pesquisa do CGIAR, destacou avanços que vêm impulsionando a agricultura regenerativa, especialmente no campo da agrobiodiversidade. Entre eles, citou o progresso em políticas e tratados internacionais, legislações sobre sementes, o desenvolvimento de mercados para “culturas de oportunidade” e inovações em melhoramento genético vegetal. “Com as mudanças climáticas, estamos observando uma mudança drástica no espectro de pragas e doenças que afetam nossas lavouras. Em vez de simplesmente aplicar mais pesticidas, muitas empresas de melhoramento estão desenvolvendo variedades mais resistentes e tolerantes, além de plantas que utilizam a água de forma mais eficiente. Todas essas possibilidades estão no horizonte e exigem um esforço conjunto de todos nós.”

“Como mulheres indígenas, não podemos viver sem a floresta. À medida que nossa floresta desaparece, nossa cultura desaparece com ela”, afirmou Nancy Reyna López, liderança Weenhayek e co-coordenadora da GLFx Wikina Wos. Ela também alertou para os riscos enfrentados por seu território, que sustenta sua comunidade de baixa renda, distante dos centros urbanos, ao fornecer plantas medicinais, alimentos nativos nutritivos e um espaço para transmitir conhecimentos às crianças e ensinar o valor de sua terra. “Nasci nessa floresta e tenho o direito de defendê-la, de cultivá-la. Não quero perder minha cultura, minha língua materna nem os conhecimentos que meus avós me transmitiram.”

“A agricultura regenerativa tem não só uma mensagem importante para os tempos que estamos vivendo, mas também representa uma possibilidade real de transformar a relação entre a sociedade e a natureza a partir da iniciativa das diferentes camadas de agricultores, tanto os fazendeiros quanto as comunidades tradicionais, cuja cultura material e espiritual tem de ser permanentemente respeitada e valorizada”, afirmou Ricardo Abramovay, uma das principais referências em bioeconomia e professor sênior da Universidade de São Paulo. Ele convidou todos os atores a negociar uma transição que abandone práticas prejudiciais, compreendendo a agricultura regenerativa não apenas como uma técnica, mas como um valor ético e normativo capaz de promover uma relação mais saudável entre as pessoas e a natureza.

Realizado pela primeira vez no Brasil, o fórum foi organizado pelo Global Landscapes Forum (GLF), pela Sustainable Agriculture Network (SAN), pelo Imaflora e pela CABI. Na terça-feira, 23 de junho, o evento reuniu quase 350 participantes presencialmente em Piracicaba, São Paulo, e mais de 3.700 pessoas online.

Reveja as sessões, explore os principais insights compartilhados por especialistas e conheça iniciativas locais de agricultura regenerativa em bit.ly/RegenAg2026_PT. Confira também as fotos do evento no Flickr.

###

NOTAS PARA EDITORES 

SOBRE O GLF
O Global Landscapes Forum (GLF) é a maior plataforma mundial de conhecimento sobre o uso integrado da terra, conectando pessoas com uma visão compartilhada para criar territórios produtivos, rentáveis, equitativos e resilientes. Ele é liderado pela Landscape Alliance – CIFOR & ICRAF in action, em colaboração com seus co-fundadores PNUMA e o Banco Mundial, e as organizações membros. Saiba mais em www.globallandscapesforum.org.

Join the Movement

The Global Landscapes Forum (GLF) is the world’s largest knowledge-led platform on integrated land use, connecting people with a shared vision to create productive, profitable, equitable and resilient landscapes. It is led by the Center for International Forestry Research and World Agroforestry (CIFOR-ICRAF), in collaboration with its co-founders UNEP and the World Bank, and its charter members. Learn more at www.globallandscapesforum.org.